terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Tó Pedro o anarquista que chegou a sacristão de Portela


O tio Tó Pedro a tomar chá com o Lita, sentado nos rachos do esqueiro.

De batismo recebeu o nome de António mas ficou conhecido por Tó Pedro, nomeada que herdou do avô em virtude das suas parecenças. Embora dotado de muita força e capacidade para trabalhar obedecer não era o seu forte. A sua vida dedicou-a à agricultura e à brincadeira com a rapaziada mais nova, sobrinhos e amigos todos partilhavam as brincadeiras com ele. Lembro bem o jogo da palma que preenchia as veladas à lareira e que ele organizava com a rapaziada. A palmada dele, com as suas mãos grandes e calejadas era sempre a mais forte, o que o denunciava. Quando era ele a amarrar todos tentávamos a vingança, o Hélder e o Zé pequeno eram os que mais aguentavam, quanto a mim, fui muitas vezes para a cama com as palmas das mãos quentinhas e a latejar.
Dotado de larga imaginação e capacidade de improviso criou alguns hábitos que não tiveram seguidores: palitar os dentes com um prego, encher as socas com folhas de nogueira para aliviar o suor ou comer fruta verde, eram algumas das suas invenções que se perderam. Uma cebola ou um tomate verde com sal grosso eram para ele verdadeiro petisco que muitas vezes acompanhava com um melão ainda verde ou pepino. Alguns destes acepipes  pagou-os bem caros, como a diarreia que o levou à cama e quase o tosquiou quando envenenaram o mel do enxame  onde espetava o dedo sempre que passava por perto. Nesse dia, ao chupar o dedo besuntado de mel, não sentiu o sabor ao remédio do escaravelho com que a dona do castanheiro tinha temperado o petisco.
O Hélder era o mais corajoso
Apreciador de umas boas partidas não havia gato ou cão que o não temesse. E o mesmo se aplicava à rapaziada que brindava com uns mosquetes ou beliscões (muchicos) sempre que se punham a jeito. Apreciador de uns copinhos, de chá frio entenda-se!.., encontrava facilmente quem o acompanhasse; como o Lita, o Fernando Nanoia, ou até os sobrinhos!...
Embora não fosse grande frequentador da igreja chegou a sacristão!... ficaram conhecidas as longas conversas  com o senhor cura:“…o senhor padre sabe-me dizer o que está depois do céu? ”como o padre hesitasse na resposta, talvez procurando alguma explicação teológica, logo surgia a gargalhada e a explicação. “ Não vê que é o santificado, parece que não sabe o padre nosso ? ”.
Dizia que tinha que chegar o padre a beber pois era ele que levava o vinho para a missa. Vinho esse que algumas vezes deixou envinagrar e levava o senhor cura a fazer uma grande careta durante a missa. Em vez de pedir desculpa aproveitava logo para perguntar : “...o senhor padre anda chateado com o patrão?  fez-lhe cá uma careta!...”
Esta vida desregrada trouxe-lhe alguns problemas de saúde que lhe limitaram a mobilidade, e foi mais um dos seus múltiplos descuidos que lhe queimou as ceroulas e lhe arruinou as pernas. Já acamado e de papo para o ar não perdeu a malicia e sempre que uma mulher o visitava dizia “ ai filha, ai filha, deita-te aqui, deita-te aqui!..."
Como sobrinho e companheiro de algumas brincadeiras relembro com saudade o tio Tó Pedro e as traganices com que me brindava sempre que o visitava. Mas é também com saudade que lembro o heroismo com o que o Hélder se batia no jogo da palma. Mais do que suportar as palmadas ásperas dos mais velhos, como eu fazia, o Hélder puxava como ninguém as palmadas de que disfarçava brilhantemente a autoria, raramente era apanhado e amarrava com a mão nas costas.
Mário Vaz - Porto.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma aventura na loja dó Pácio

Era domingo e estava uma daquelas manhãs geadeiras do inicio de Dezembro. Desde o Ranhadouro até ao Porral havia uma geada branquinha que parecia neve e a bica dó campo estava cheia de carojo. O primo de Bragança tinha vindo pela manhã com o pai por causa de uns assuntos de que eles pouco entendiam, coisas de homens!... Enquanto todos conversavam à lareira à espera de um chocolate com sopas para o mata bicho que a tia Belmira estava a cozinhar no pote, o Zé pequeno chamou o primo para o cimo das escadas para lhe contar que a Castanha tinha parido um vitelinho há cerca de uma semana. É mesmo bonito, dizia ele, farta-se de mamar e já salta como um cabrito. Está uma autentica fera!.. rematou para acicatar a curiosidade do primo. Vamos lá vê-lo enquanto eles estão entretidos na conversa, dizia o Zé. O vitelo está na loja dó Pácio e o tio Tó Pedro já deitou as vacas para o lameiro. E assim foi, a correr pelo caminho acima com as botas a bater na côdea dura em que a geada tinha transformado o lodo, lá foram lampeiros que a curiosidade era muita e dificil de aguentar.
De facto, o bicho era mesmo bonito e já se mexia bem. Assustado, correu para o fundo da loja logo que os primos puxaram o caravelho e abriram a porta. E lá ficou, encostado à parede coberta de teias de aranha e a olhar paras os ganapos como que a perguntar, quem são estes? e o que é que eles querem? Quanto a eles, estavam entusiasmados com a ideia de terem o bicho ali indefeso e à sua mercê. O Zé pequeno, mais velho e mais habituado às lides do campo, propôs logo que se lhe fizesse a pega. Não de cernelha, que isso é coisa de fracotes, mas sim uma pega de caras, como deve ser, como fazem os forcados. E assim foi, aproximaram-se encostados à parede procurando por os pés na palha mais seca, pois a loja, que não estava estrumada de novo, mais parecia um esterqueiro. Quando já estavam ambos com o touro alinhado e pronto para a pega, o bicho assustado investiu contra eles atirando-os de costas para cima da bosta fresca. 
A queda foi amparada na camada mole que revestia o chão da loja e não deixou lesões, o pior foi depois explicar ao pai e aos tios como tinha acontecido, o que tinham feito para ficar todos cagados. A conversa sobre um ter escorregado no gelo do caminho e cairem ambos no lodo quando o outro, puxando o braço procurou ajudar pareceu não ter sido muito convincente, no entanto evitou males maiores!..Quanto aos dois lafraus pouco aprenderam com a lição pois muitas partidas e brincadeiras haviam ainda de partilhar, não com aquele vitelo que não tinha revelado grande gosto por brincadeiras.
Mário Vaz-Porto
O Anibal, o Zé pequeno e o tio César na companhia de um visitante que estava em Portela

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A minha tia Belmira de Portela

Diz-se, por vezes, que há quem nasça para ser servido, mas é bem verdade que existe quem, por nascimento, receba tal generosidade e espírito de sacrifício que encontre plena realização vivendo a servir os outros. Este foi  o caso da minha tia Belmira, que sendo a segunda de oito irmãos e uma das duas mulheres, passou toda a sua vida ao serviço da família. Quis o destino que nascesse dotada para o trabalho e capaz de tudo fazer com desenvoltura e perfeição. Fosse no tempo do feno ou nas cegadas acompanhava os irmãos no campo, tratava da lide da casa onde havia sempre porcos e galinhas e ainda encontrava tempo para tecer algumas mantas de farrapos e tricotar "meotes" de lã com que os irmãos e sobrinhos protegiam os pés do rigor das geadas. Do namorico da juventude nunca resultou casamento por desencontros de famílias, embora ambos tenham alimentado secretamente o seu amor ao longo da vida como se de uma pequena traquinice se tratasse. Numa altura em que o peixe não abundava e a sardinha salgada era um petisco dividido entre dois, tocava-lhe sempre a cabeça de que aprendeu a gostar. Para os sobrinhos guardava sempre alguns mimos, normalmente algumas súplicas, mantidas frescas num saco de pano que pendurava no quarto escuro. Como em casa havia sempre gado aprendeu também a tratar da lã, lavando-a, cardando-a e fiando ao serão os novelos que depois transformava em peças de roupa para a família. Muito dotada para a cozinha assava cordeiro como ninguém, ainda que não fosse apreciadora de tal petisco. Ainda nova perdeu a audição passando a utilizar um aparelho que pendurava ao pescoço em saquinhos de pano que ela mesmo costurava. Quando a conversa não lhe agradava ou os sobrinhos traziam à baila as suspeitas do seu namoro secreto desligava o aparelho e desculpava-se com a sua surdez. Apesar de não ter sido brindada com a maternidade, cedo perdeu os dentes e passou a utilizar dentadura, que tirava da boca com a língua quando queria assustar os miúdos que andavam sempre à volta dela. Tinha tal jeito para as crianças que para além dos sobrinhos criava cordeiros e leitões, sempre que uma ovelha trazia gémeos ou segundiços ou um leitão ficava sem teta. Quando os vários casamentos foram levando os irmãos e dividindo a família manteve a casa dos pais junto com os dois irmãos que ficaram solteiros. Embora eles dividissem o trabalho agrícola e de pastoreio, de acordo com a sua preferência, a ela tocava-lhe sempre ajudá-los sem, com isso, descurar as outras tarefas que uma casa da aldeia exige. Sempre bem disposta e pronta a ajudar são poucas as birras que se lhe conhecem, embora houvesse quem afiançasse que, quando picada, tinha muito mau génio. Já mulher madura assistiu às peripécias e tropelias do irmão que haviam de o acamar para o resto da vida. Sem reclamar, assumiu tratar-se de um filho seu e tratou-o como verdadeira mãe enquanto ele esteve entre nós deitado a contemplar o tecto do seu quarto. Quando a velhice se aproximou, empurrada pela vida difícil que levou, uma queda nas lages da cozinha, partiu-lhe o fémur, fragilizado por uma alimentação onde o leite não entrava. Embora nunca faltasse com o arroz doce nos almoços e jantares das festas e o leite das ovelhas e vacas fosse abundante lá em casa, nunca foi coisa que lhe agradasse beber. O tratamento da fratura correu bem e tudo parecia encaminhado para que tivesse, finalmente, uma velhice sossegada. Contudo, quem teve uma vida tão activa a tratar dos outros não se acomodou a que fossem agora os outros a servi-la e como que desistiu de lutar pela sua recuperação. Já acamada e com as faculdades a degradarem-se ainda acordava de noite preocupada com os outros e a perguntar pelas tarefas da casa.
Esta é a história da minha tia Belmira de que muito gostei e de quem embora não tenha herdado  a capacidade de trabalho e espírito de sacrifício, alguns dizem me deixou o nariz e alguns traços da minha fisionomia. Quanto a isso não me importo e até são motivo de alguma vaidade...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Gondesende é uma aldeia bonita, é a minha...

A aldeia vista das Barrondas num dia nublado de dezembro
Gondesende é a minha aldeia, não por nascimento, pois vim ao mundo na freguesia da Sé em Bragança, mas sim por escolha consciente e voluntária. Foi lá que eu vivi grande parte da minha infância, quer a brincar, quer a ajudar os meus tios nas lides do campo. Lembro-me ainda quando todos jogávamos à bola nas eiras dó cachão e das caneladas com as solas de amieiro que alguns ainda utilizavam como “chuteiras”. Foi também lá que participei em muitas acarrejas e malhas onde nos enchíamos de pó e praganas, que se colavam ao suor do corpo, ao som do trator vermelho do Russo Lagarelhos. Nas noites estreladas do dia da malha deitávamos-nos de papo para o ar no chão aquecido pelos longos dias de soalheira sobre uma manta de trapos a olhar o céu estrelado e a sentirmos a nossa pequenez perante o universo imenso. Ao ver a via láctea, sempre bem visível naqueles céus claros, lá vinha a estória do caminho de Santiago e do homem que bateu na mulher por fazer a cama ao luar.
A casa da Toneca numa noite de inverno escura como breu
Mas, mais importante que tudo isto, é em Gondesende que me encontro mais próximo das raízes. Os familiares e amigos que restam lembram-me as muitas peripécias que partilhámos e as casas, algumas em ruínas, trazem-me à lembrança aqueles que já partiram e povoam ainda algumas conversas com os mais velhos. Vezes sem conta me falaram das partidas do avô Augusto e a forma com tocava de ouvido qualquer instrumento,  sanfona ou rabeca tanto dava. Mas também ouvi muitas vezes o tio David perguntar com se faz um conto com 9 notas e perante a minha hesitação respondia de imediato “…só tendes habilidade para as letras!..”
Um pisco sem medo da geada matinal a cantar na lameira de à fonte dó cabo
Aqui, onde durante muitos e muitos anos todos se uniam para, à torna jeira, realizarem as principais tarefas agrícolas, tais como: a recolha do feno, a acarreja, a cegada e a malha, ou tratar daquilo que é de todos num dia de povo decidido em conselho de aldeia, fui aprendendo a solidariedade e a força das decisões coletivas. Lembro ainda o dia em que todo o povo se uniu para atulhar um poço construído sem autorização demasiado próximo da agueira do rego. Cada casa uma enxada e todos mostraram a força da aldeia. Isto é Gondesende da minha meninice que lembro com alguma saudade.
Sempre que regresso a Gondesende para recuperar energia para mais uns meses de vida urbana, revejo muitas destas pequenas estórias. Aqui as estações do ano mudam a paisagem, as pessoas preocupam-se em colher no verão para poder ter no inverno e, mesmo sabendo que um castanheiro ou nogueira demoram uma década a dar fruto, continuam a plantá-los para benefício dos vindouros. Por aqui tudo vai funcionando como sempre sem que isso sirva de exemplo para quem decide sobre a nossa vida, lá longe, na cidade.
A aldeia é de facto bonita, construída sobre uma colina com a fraga da Orca a sul e Maquieiros a poente. À noite apenas as luzes de Maças, 8km em linha reta, se conseguem ver. De dia é muito fácil ver Gondesende desde qualquer elevação em volta da aldeia, das Barrondas, de Maquieios, da fraga de Orca ou de à Costa é possível tirar bonitas fotografias que vou colecionando sempre que posso. Neste Natal em todas elas era visível a grua do Humberto que sobressai a meio da aldeia. Como em qualquer sitio um engenho destes é sinónimo de progresso e de que alguém quer regressar e construir a sua casa para disfrutar o prazer de viver na aldeia. Mas os dias que lá passei durante esta quadra mostraram que esta grua não passa de um estranho monumento às divisões que, como o caruncho da madeira, vão destruindo aquilo que foi construído como o trabalho e a participação de todos e que todos aprendemos a admirar e estimar. Mais do que tomar partido é necessário ouvir os mais velhos e tomar os seus conselhos pois se é verdade que já se matou por um palmo de terra também é verdade que o direito romano tem mais de 2000 anos e é da discussão franca que nasce a luz. Pela parte que me toca muito gostaria de ver mais uma família em Gondesende e de poder retomar o são convívio de outros tempos, mas isto é apenas mais uma opinião.
(Mário Vaz,  Porto)

domingo, 25 de novembro de 2012

Aqueles que vão partindo, a tia Laucena

Cruzeiro do alto de Frezulfe
As memórias da nossa aldeia ficavam registadas nas recordações de cada um de nós e eram passadas de geração em conversas de fim de tarde ou nas longas veladas à lareira das noites geadeiras de inverno. Hoje tudo é diferente. A televisão ocupa os tempos livres e as conversas são cada vez mais escassas. Todos nós temos ainda pequenos episódios de valentia ou  de brincadeiras com personagens que já nos deixaram com o tio "carrapito", o tio "quatro", o tio Augusto ou a tia Clara e, mais recentemente, o tio David, o tio Figueiredo e a tia Laucena. Desta, ainda muitos de nós guardamos memória. Ainda muitos recordam com saudade a forma animada com contava as suas estórias. Todos encontrávamos graça à forma como descrevia coisas mirabolantes, muitas vezes inventando palavras como "espanzolar", "estirapar", ou utilizando termos com "gazolo", escutar cavalaria e outros pouco utilizados.
A tia Laucena foi durante muito tempo a responsável por levar a bolsa do correio a Espinhosela. Embora não tivesse nascido na aldeia era já considerada como sendo do povo. Era também dela uma das melhores cadelas de caça que a aldeia já conheceu. A "birinha" ou dona Elvira, como alguns a tratavam com maior deferência, era destemida para encontrar coelhos. Fosse nas touças de Marnuno, no Sardoal de Espinhosela ou no Touço de Maquieiros, não havia terreno que esta cadela não conhecesse. Por vezes até parecia que sabia onde os coelhos e perdizes se encontravam. Como a tia Laucena durante muito tempo não tinha caçadores na família a sua cadela ia com quem a chamava e os caçadores reconhecidos retribuíam com peças de caça para o pote dos seus donos. A tia Laucena era também conhecida pela sua simpatia e atenção com os mais novos. Por isso quem teve o previlégio de a conhecer guarda dela uma boa recordação.

sábado, 7 de abril de 2012

O CORPO DE DEUS, festa principal da aldeia de Gondesende


"Corpo de Deus" ou Corpus Christi é uma solenidade cristã que começou a ser celebrada em 1246, na cidade de Liège, actual Bélgica. Esta celebração foi alargada à Igreja latina através da bula "Transiturus" do Papa Urbano IV que a dotou de missa e ofício próprios. Provavelmente, nos finais do século XIII chegou a Portugal e tomou a denominação de Festa de Corpo de Deus, embora o mistério e a festa da Eucaristia seja o Corpo de Cristo. Esta exultação popular à Eucaristia é manifestada no 60° dia após a Páscoa e, forçosamente, a uma Quinta-feira, fazendo assim a união íntima com a Última Ceia de Quinta-feira Santa. Trata-se de uma celebração que é realizada em múltiplos locais de norte a sul do país.
Esta é também a princial festividade da aldeia de Gondesende que a celebra invariavelmente numa quinta-feira, como é da tradição.  As famílias reunem-se para esta festa que inclui, normalmente, uma missa e procissão na parte liturgica, e jogos tradicionais como: a sueca, o fito e os paus, na sua parte lúdica pagã. Como de costume compete aos mordomos angariar as receitas e organizar as festividades. Para que tudo corra pelo melhor é necessário muito trabalho mas também muita imaginação, na procura de novos meios de financiamento. Como sempre, neste povo amigo e solidário, reunem-se esforços para fazer renascer o artesanato ancestral e construir as rendas, os paninhos, as cestas, as compotas e tudo aquilo que pode ser vendido aos amigos e visitantes.
Os preparativos para a festa deste ano, que se realizará a 7 de junho, já começaram com a realização de algumas reuniões para fazer rendas e paninhos. A coleção começa a crescer pois aos que foram feitos foram já acrescentadas algumas ofertas de amigas, tais como:
- Cremilde Pires, Mariana de Jesus, Luísa Sá, Hermínia Leónida, Lúzia (da tia Cremilde, que Deus tenha), e a tia Margarida, Ana Maria, Dona Anália de Leiria ... isto por agora, pois muitas outras contribuições virão, concerteza. Este ano dicidimos mostrar aqui algumas das peças que já nos chegaram para que todos as possam apreciar. Para isso basta que cliquem no link sobre o artesanato. A venda será na casa do povo mas também aceitamos pedidos de envio, desde que paguem os portes de correio. Os donativos e contribuições poderão ser entregues aos mordomos ou enviados pelo correio para Casa do Povo de Gondesende, Comissão de Festas, 5300-561 Bragança.
"...quem mais dá mais amigo é do Santo...", como dizia a minha avó Imperatriz que Deus haja.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Já temos o folar para a Páscoa deste ano

Hoje todos madrugaram pois foi o dia do folar. As dúzias de ovos que já estavam destinadas ao folar foram partidas, com o cuidado de separar qualquer ovo menos bom, e batidas. Depois a farinha de trigo foi amassada com o fermento, os ovos e a manteiga até ficar na consistência certa. A massa foi depois colocada num cesto de verga, embrulhada num lençol de linho e vários cobertores e colocada perto da lareira para levedar. O calor do lume ajuda a massa, já um pouco morna por ser amassada com a manteiga ligeiramente aquecida, a levedar mais depressa.
Com a massa já leveda foi necessário fingir e colocar a massa nas formas, por camadas como é tradição, intercaladas com as carnes, toucinho, presunto, chouriça de carne e salpicão. Mas para isso alguém teve que cortar as carnes na dimensão certa, nem demasiado fina, nem demasiado grossa, pois o folar é muito mais saboroso com a gordura das carnes. Também foi necessário untar bem as formas para que o folar não se agarre durante a cozedura.
As estevas e giestas trazidas ontem da touça dá costa foram utilizadas para rojar o forno. O cheiro resinoso da esteva a arder tráz logo à boca o sabor do pão acabado de cozer. Com a massa nas formas untadas foram colocados pedaços de papel no cimo da massa, presos com pauzinhos, para que o calor do forno não queime muito a côdea do folar.
Também sobrou massa para ums bolas para os mais novos e até foi possível deixá-los fazer algumas experiências como aprendizes de padeiro.
Ao fim de duas horas, já o aroma do pão acabado de fazer, invadia todas as divisões da casa. Depois foi só desenformar  e saborear o novo folar. O pão está macio e saboroso, talvez um pouco claro, mas agora os ovos são de aviário e com as gemas mais claras. Claro que fomos todos provar o folar,ainda quente, mas sem tocar na carne pois hoje é sexta-feira santa e dia de abstinência, "...nas condições que todos conhecem...", diria o saudoso padre João de Espinhosela.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Páscoa em Gondesende - 2012















A dia de Páscoa tem um profundo simbolismo na religião cristã e é tradicionalmente celebrado na freguesia de Gondesende. A missa de Páscoa, numa das 3 aldeias da Freguesia, Portela, Oleiro ou Gondesende, é normalmente seguida da visita do compasso às casas das aldeias. Ainda que não sendo obrigatório, praticamente todas as familias abrem a porta de sua casa para receber a visita pascal.
A nossa igreja matriz possui algumas imagens de santos relacionadas com a paixão e morte de Cristo, isto é, alusivas a esta quadra. Um especial destaque é devido à imagem do Divino Senhor pela sua rara beleza e perfeição.
Este ano o inverno tem sido pouco rigoroso e seco e o rio Baceiro, apesar de estarmos em Abril, continua com pouca água. Com a temperatura a subir apereceram as flores nos cerdeiros e os rebentos começaram a surgir nas parreiras. Mas os útimos dias têm sido frios e até apareceram alguns "farrapinhos de neve", a continuar assim este será um ano de fraca colheita. Todos esperamos que esta instabilidade seja associada ao luto que se celebra nesta quadra e que o domingo de Páscoa nos devolva a chuva e o inicio da primavera. Só desta forma a agricultura poderá recompensar aqueles que a ela dedicam muito tempo da sua vida.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Os animais da aldeia

Como sabem este espaço destina-se a revelar as nossa tradições e memórias mas também o nosso dia a dia e aquilo que de bom se vai fazendo por estes lados. Hoje é o dia de, pela primeira vez, revelar trabalhos feitos por outros. As fotografias deste post foram obtidas pela nossa amiga Paula Rodrigues e aqui reproduzidas com a devida vénia. Trata-se de fotografias de animais e paisagens da nossa região obtidas por alguém que nos é querido.




Os meus parabéns à Paula pela qualidade das suas fotografias e pelo talento que estas revelam. Espero que em breve possamos contar com mais colaborações, quer da Paula, quer de outros,  pois sabemos que a nossa aldeia tem mais pessoas talentosas.
http://www.facebook.com/#!/profile.php?id=1202539769 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Numa noite geadeira de Fevereiro

A ponte nova de Maquieiros sobre o rio Baceiro num dia de inverno.
Era Fevereiro, numa daquelas noites claras e geadeiras em que o frio aperta até fazer doer os ossos. Nesse ano o mês de Dezembro tinha sido muito chuvoso e o rio Baceiro levava ainda muita água. Mas um Janeiro mais seco e frio limpou a água e o rio corria com aquele aspecto límpido e transparente a que nos habituámos, com uma água que apetece beber. Como em casa se tinha acabado a farinha desta vez calhou-lhe a ele a ida para o moinho. O irmão ajudou a levar os sacos no carro da cria e regressou à aldeia com a promessa de voltar no dia seguinte para ajudar a levar os sacos da farinha. Já ao fim do dia e depois de picar a pedra e meter dois sacos de trigo na termoia, foi encaminhar a água para a cuba do moinho, levantou o rodizio para ajustar a moagem e começou a moer. Pela quantidade de sacos que tinha trazido, os da casa e o do vizinho que lhe pediu para moer três alqueires de trigo para fazer umas alheiras tardias, teria trabalho para se entreter toda a noite. Nesta altura do ano os dias são curtos e começou cedo a anoitecer. Previa-se uma noite clara mas fria e geadeira de lua cheia.
Ameijoeira para apanhar enguias.
Depois de comer um pedaço de toucinho cozido numa codêa de centeio e preparar a cama no feixe de colmo que cobriu com uma manta de farrapos e um cobertor de lã, deitou-se para descansar um pouco. O tarabelo mantinha alguma animação com aquele barulho rouco que fazia sobre a mó, mas o sono não havia maneira de querer chegar. Decidiu ir ver a agueira do moinho para se certificar de que estava tudo bem. Com a claridade do luar ainda pode ver duas ou três trutas que se escaparam em direcção à represa. Pareceu-lhe ver uma luz na beira do rio e foi sorrateiramente ver quem seria que àquela hora andava por ali. Mal se aproximou  reconheceu logo o amigo de Portela que acendera uma fogueira para se aquecer e secar a roupa. Um pouco mais abaixo pode ver as pedras mais claras de um armadeiro para ameijoeira e percebeu a razão daquele passeio nocturno. Tirou os socos e as meias de lã, dobrou as calças até ao joelho e desceu a cemba do rio coberto pelas sombras dos amieiros. Lá estava a ameixoeira e já com duas trutas. Uma delas parecia bem boa, com mais de um palmo. Com a navalha que trazia sempre no bolso preparou um gancho na ponta de uma vara que encontrou no chão e, com muito cuidado para não fazer barulho, tirou a ameijoeira do rio. Era uma boa ameijoeira, com uma malha bem feita e com as varas bem preparadas. Reconheceu logo o trabalho do irmão, pastor que tanto jeito tinha para fazer estas armadilhas,  e percebeu que aquela era a que lhe tinham roubado no último inverno.
As duas trutas que já tinham sido apanhadas meteu-as no bolso da samarra ainda a estrebuchar e levou-as com ele a pensar já no escabeche que lhe iria fazer. O peixe por ali não abundava e o sardinheiro só vinha de vez em quanto. Nesses dias uma sardinha era dividida por dois. A sorte dele é que a irmã era apreciadora da cabeça e a ele tocava-lhe sempre a parte mais carnuda. Enquanto voltava para o moinho as calças molhadas na água gelada do rio começaram a ficar duras com o gelo. Já não sentia as pernas com o frio. Quando já estava perto do moinho lembrou-se das trutas que tinha visto na agueira e lá foi fazer o armadeiro e montar a ameijoeira para aumentar a pescaria. Molhou-se outra vez na água do rio e com as calças e os pés completamente gelados voltou ao moinho onde fez uma fogueira para se secar. Já era dia claro quando acordou sobressaltado. O moinho ainda moía quando se lembrou da armadilha que tinha montado durante a noite. Calçou os socos e correu para o sitio do armadeiro. As pedras continuavam no sitio onde as pusera mas da ameijoeira, nem rasto. Não se preocupou, uma noite destas voltaria ao rio para a procurar. Naquele tempo poucos eram os que não tinham já roubado ou deixado roubar uma ameijoeira...
Hoje são outras as ocupações nocturnas e as ameixoeiras, feitas em fio de algodão, lá estão, cheias de buracos, penduradas nas paredes de pedra como troféus inúteis das noites passadas ao frio.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Bruxas e almas penadas

Os serões à lareira nas noites geadeiras de inverno foram sempre povoados de muitas estórias de bruxas e almas penadas. Dizia-se que em todas as aldeias existia pelo menos uma bruxa, ou alguém suspeito de o ser…O tio David que Deus tenha garantia a pés juntos que em Gondesende eram mais e que nunca saia à rua em jejum. Contava que um dia o tio António dó Cabo tinha acabado de compor um relógio de bolso e alguém, que se suspeitava ser capaz de bruxedos, olhou para o relógio e este parou de imediato. Dizia-se também que se alguém espetasse um prego na sombra de uma bruxa ela não conseguiria sair do lugar! Em Portela as suspeitas recaiam sobre a velha Meireles. Era uma mulheraça, alta, magra e com os pés muito grandes, mas pouco dada ao convívio, principlamente com os catraios. Os garotos não a podiam ver parada ao Sol que logo iam espetar um prego na sua sombra. Mas…claro está! a pobre coitada lá seguia o seu caminho gemendo e andando e nunca houve a mais pequena evidência de bruxedo. Depois de ela morrer muitos disseram ouvi-la gemer quando, durante a noite, passavam à porta dela. Mas a imaginação é fértil quando o medo aperta nas noites escuras como breu.
Contava-se ainda que as bruxas aproveitavam as noites de lua cheia para se juntar numa qualquer encruzilhada e passavam a noite a cantar e a dançar. Num destes encontros participou um marreca que vinha de Espinhosela e ao chegar à Cruz de Paio, já perto de Gondesende, encontrou um baile animado em que participavam algumas mulheres que ele conhecia. Não sabendo do que se tratava decidiu juntar-se à festa e começou a cantar junto com elas: terças e sextas, terças e sextas
No fim do baile  uma delas disse: que é que lhe vamos dar por tanto nos ajudar?!
A marreca lhe havemos de tirar - foi a resposta que todas gritaram. E o homem logo ficou desempenado e sem o “pão” que tinha nas costas. No dia seguinte, ao sair da missa, um vizinho que padecia da mesma maleita pergunta-lhe o que ele tinha feito para estar tão direitinho. E ele em segredo contou-lhe a estória que se tinha passado. O marreca logo disse: então, também lá vou! E foi. Meteu-se no baile das bruxas e procurando ganhar mais qualquer coisita… cantava: terças e sextas, sábados e domingos também, terças e sextas, sábados e domingos também… No final, como da outra vez, uma das bruxas diz: e a este ? O que lhe havemos de dar pelos dias que nos acrescentou? Responderam todas em coro: a marreca que o outro deixou! e o homem lá ficou com a sua marreca acrescentada.
Mas pior do que bruxas, bruxedos e maus-olhados, seria passar ao pé do cemitério numa noite escura ou ver os fogos-fátuos que pairavam por cima das campas… Conta-se que numa noite fria e chuvosa de Inverno um garoto, para se abrigar da chuva, se escondeu debaixo da padieira da porta do cemitério. O tio Félix que Deus tenha descia a altas horas pelo adro abaixo e o petiz, em jeito de brincadeira, agarrou-se-lhe às pernas… Foi tal o susto que o coitado do homem ficou mudo por uns tempos! Mas partidas destas existiam muitas para pôr à prova a coragem dos mais afoitos ou para os mais cagarolas mostrarem alguma valentia.
Uma das estórias que ainda hoje se conta passou-se em Oleiros quando numa certa noite um homem vinha do moinho com uma saca de farinha às costas. Ao chegar ao cruzeiro de Santo André, já exausto, parou para descansar e pousou a saca em cima da raiz de um carvalho. Entretanto, passam dois homens e ele pediu se o podiam ajudar a pôr a saca às costas para continuar a sua jornada que ainda era longa. E um deles diz: - ajuda-o lá tu que morreste de umas facadas…que eu não posso pois morri de uma caganeira! Claro que o homem já nem quis ajuda nem quis levar o saco… se usava ceroulas, estas não deviam ter ficado em grande estado!
Claro está que è a matriz Celta que partilhamos com os vizinhos Galegos que nos povoa a memória de bruxas e bruxedos. O vento continua a gemer durante as noites frias mas com a iluminação das ruas e com as deslocações de carro as bruxas vêem-se menos, mas que as há, disso ninguém duvida!...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O Pedro das "malas" artes

O Pedro Tomé tem hoje mais de meio século de existência e vive em Bragança, mas a sua meninice passou em Gondesende no bairro dó Carvalho.   Parte da sua infância partilhou-a com a garotada da aldeia nas suas brincadeiras e traquinices. Nessa altura muitos usavam socos de madeira para jogar à bola e os "pitões" eram brochas marteladas que evitavam o desgaste da sola de amieiro. Mas o Pedro pouco ligava a essas coisas, a sua paixão era a malhadeira do Russo e o David Brown vermelho com que o Adérito de Oleiros a punha a trabalhar. O barulho da malhadeira amarela, o esticar da correia, o meter palha no cilindro e o ronco do trator povoavam-lhe a imaginação. Com uns trochos de couve espetados na parede da cortinha do tio Figueiredo improvisava uma malhadeira. Um pequeno feixe de erva nas mãos e muita imaginação e lá estava ele a cantarolar "... cá está a ma lha deira, brum, brum, brum brum, brum, brum..." E nós, um pouco mais novos, admiravamos o esforço e assistiamos à malha.
Naquele tempo a Autoviação Mirandelense fazia os transportes para a cidade de Bragança com as carreiras pintadas de castanho e creme. A rapaziada só distinguia aquela que tinha o motor saliente para a frente das "mochas", mais parecidas com as atuais, e sabiamos que passavam por Vinhais e iam até ao Barracão, que era para nós o fim do mundo conhecido. Como o trânsito na estrada era escasso e o roncar da carreira se distinguia do barulho dos carros ligeiros era fácil ouvir o seu ronco quando subia carregada em direção ao abrigo. O Pedro, sempre atento, mudava a cantiga e começava "...lá vem a ca reira das nove e meia, brum, brum, brum, brum..."
Depois o pai, o Chico da Ruça, mudou-se com a família para Bragança e o Pedro deixou de cantarolar pela rua dó Carvalho. O casal foi vendido e a casa dó tanque é hoje a Casa da Bica. A casa onde viviam ao pé da poça dó carvalho foi depois da tia Laucena, pessoa que também deixou marcas nas memórias da aldeia e de quem falaremos um dia.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Landonas, bazófias e fanfarronices

Tempos houve em que a telefonia não tinha chegado à aldeia e a televisão não passava de uma miragem. Os serões eram passados à lareira a contar estórias, jogar à “rebulhana” com os bilhós acabados de tirar do lume ou a ouvir o tio Oliveira, que Deus tenha, a contar, em versos, a vida do João Soldado. Esse homem, de quem não se conhecia a origem, aproveitava o cantinho atrás do lar (lareira) para cozinhar umas sopas na sua panela carbonizada e pagava os ingredientes com as suas estórias em verso. O vinho que o animava era, na maior parte dos casos, refervido ou tombado e, por isso, não o partilhava com os que o escutavam.
Nessa altura eram as fanfarronices e bazófias as mais apreciadas pelos mais novos. Quem não gostava de ouvir os relatos das grandes noitadas em que se bebia uma remeia de vinho (1/2 cântaro) e se comia “até lhe chegar com o dedo”. Outros gababam-se dos feitos, seus ou de outros, como a vinda do Pona defender a sua pátria (Portela) e o traque estrondoso do Tio Santo que da vinha dó Navalho fez ladrar os cães em Gondesende (mais de 1 km em linha reta). O tio David, que Deus haja, preferia os quebra cabeças e adivinhas. Quem não se lembra de o ouvir perguntar “como se faz um conto com 9 notas”. Havia ainda os sobredotados como o tio António dó Cabo, homem de grande sucesso entre as mulheres da aldeia que, de pé, conseguia segurar duas carreirinhas de bilhós sem utilizar as mãos.
Aqueles que ficaram conhecidos pelas suas alcunhas como o tio Carrapito, o tio Quatro, o Pacheca, a tia Ruça e a tia Maria dó Carvalho já há muito que nos abandonaram e já nem o cemitério local guarda a sua passagem. Não fora a alcunha e há muito não seriam lembrados. Mas hoje todos os dias a televisão nos traz para casa as notícias do mundo. Já não é fácil convencer os outros da grandeza das nossas façanhas e para ser famoso é preciso testemunhas e diplomas que as atestem perante o mundo. Mas nem isso é problema para as gentes da aldeia e o livro do Guiness lá regista a maior navalha do mundo, no Cepo Verde em Gondesende. Esta! Eu gostava de ver se os nossos vizinhos de Portela eram capazes de roubar.
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domingo, 25 de dezembro de 2011

Votos de Boas Festas e próspero ano de 2012








Caros amigos, cá estamos de volta para desejar a todos um Santo Natal na companhia de todos os que vos são queridos. Nesta altura as famílias da nossa aldeia recebem a visita dos que vivem fora e os serões à lareira prolongam-se noite fora. O fumo que sai de cada chaminé denuncia o calor da lareira e os afectos pelos nossos. Infelizmente este ano ainda não tivemos neve mas o frio tem sido suficiente para que não se estraguem as carnes pelo que já começaram as "matanças".
Esperamos também que todos tenham boas "entradas" no ano de 2012. Aqueles que o desejarem podem vir jantar na casa do povo e entrar no novo ano com a rapaziada de Gondesende.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Ruça, uma amiga leal

Gaudêncio era um homem honesto, "gente boa", não fugia ao trabalho mas gostava muito do "tinto"... até se fosse branco, também servia. Tinha como companheira uma burra, a "Ruça", teimosa como todas as outras e muito arisca, pois não se deixava montar por qualquer um.... No entanto, Gaudêncio considerava a burra uma amiga leal, que tudo fazia por ele.
Nas idas à feira, a burra era poupada à carga levando-a pela corda e tinha sempre um molete de trigo para lhe dar.
Quando a "piela" era grande para não cair não montava na Ruça mas vinha todo o caminho encostado a ela, não lhe largando a corda: se ele parava ela parava também, se ele caía ela esperava...( muita paciência tinha aquela burra!)... Nesses dias de muito vinho demoravam o dobro do tempo, chegando à aldeia já altas horas da noite.
Apesar de ter estado, como volutário obrigado, na primeira grande guerra em França, não era um homem de maus fígados mas dava tudo por uma boa zaragata...
Uma vez, numa feira em Bragança, viu um fulano que já lhe tinha feito uma desfeita qualquer e ele disse para os amigos que o acompanhavam: "- Está ali um homem que me deve uma gorra de ameixas" e dito isto, aproximou-se e deu-lhe uns encontrões e uns valentes  murros. Gerou-se uma grande balbúrdia, aparece a polícia e ele, na confusão, perdeu o chapéu.
Quando, à noite, chegou a casa deu por falta do chapéu que, concerteza, serviria de prova em como ele tinha  provocado todo aquele desacato... No dia seguinte, bem cedo, foi à feira a Vinhais e comprou um chapéu exactamente igual ao que tinha perdido. Passado uns dias o sardinheiro Bousende, em passagem pela aldeia e trazendo o dito chapéu, pergunta à tia Ana, irmã de Gaudêncio:- Este chapéu não é do Gaudêncio?  Ela entra e trazendo o novo chapéu na mão responde: Não. O do Gaudêncio está aqui.
Os amigos já estavam habituados às malandrices dele que quando estava com "um grão na asa" eram muitas e boas! Contam que uma vez vinha de Oleiros com o amigo César e já vinham "bem compostos"... O César vinha à frente e ele disse-lhe: - Ó César, tu que és um homem forte, vê lá se te livras desta! e levanta a sachola para lhe dar com ela na cabeça. O outro que já estava à espera do que podia acontecer, virou-se e segurou-a no ar...
Gaudêncio não era de muitas conversas mas era  amigo de toda a gente . Tinha destas "coisas"... Era o vinho a falar e a fazer das dele!...

domingo, 10 de julho de 2011

A sabedoria dos mais velhos

Existia um burguês muito rico, que se gabava de serem em ouro o seu carro e os bois. No entanto, o povo dizia:
Janeiro geadeiro,
Fevereiro farrapeiro,
Março escaravanaço,
Abril águas mil peneiradas por um mandil, todas quantas quizerem vir
Maio pardo,
São João claro,
Valem mais do que os teus bois e do que o teu carro…

Apesar de os tempos serem outros, nestas coisas da lavoura a sabedoria antiga continua a ser muito actual. É usual ouvir da boca dos mais velhos diferentes provérbios que se adequam à época, ao tempo e a uma boa ou má colheita.

"No Inverno cresce o pão debaixo da neve como o cordeiro debaixo da pele."
"Em Janeiro sobe-te ao outeiro, se vires verdejar deita-te a chorar e se vires relampejar põe-te a cantar..."
"Fevereiro quente traz o diabo no ventre."
"Em Março o Sol queima o bebé no regaço e queima a dama no palácio."
"Março marçagão de manhã cara de anjo e à tarde focinho de cão."
"Água em São João tolhe o vinho e não dá pão e em Santa Marinha até na tulha faz farinha."
"Se quiseres um bom nabal pede a Deus que te nasça mal."
"Quem faz um filho no bilhó faz a cegada só"… se a criança for feita na altura das castanhas, o mais certo é que nasça no tempo da cegada. Por isso, menos braços para trabalhar no campo…

Hoje em dia, até o tempo nos prega umas partidas... as estações do ano estão diferentes, as culturas ficam dependentes das mudanças do tempo e os pássaros que migram ficam baralhados com estas alterações.
- "Até o Sol já não é o mesmo...." ouve-se dizer