segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O moinho da Veiguinha


No meio do verde e do silêncio encontramos o moinho que  há muito tempo está abandonado no meio do nada...

Há uns anos atrás, durante o Inverno, a aldeia utilizava o moinho de Duçãos, mais perto da aldeia, que se encontra junto ao ribeiro que vem de Espinhosela  e que nessa altura leva muita água.

Mas no Verão, quando a água escasseava, carregavam-se os carros de bois, os machos ou a burra com as sacas de grão e lá íam para a Veiguinha onde se encontra o moinho do Povo. Casa construida em pedra solta junto ao rio Baceiro que além de moagem servia muitas vezes de abrigo. Naquele tempo, após a cegada e a malha e já com as arcas cheias de pão não davam descanso ao rodizio.

O trabalho era moroso e só se regressava à aldeia depois de moer todo o grão que se levava. O pão era essencial para a alimentação e tal como diz o velho ditado  "... casa em que não há pão todos ralham e ninguém tem razão". O moinho de água  só funciona se houver um bom caudal de água que faça mover as penas do rodízio. Este, por sua vez, faz rodar a de granito, muito pesada, que esmaga o grão, transformando-o na tão desejada farinha. O grão, trigo ou centeio, é colocado na tremóia e caí pela canelha que esta ligada ao tarabelo que tem uma ponta romba encostada na mó. É o  trepidar do tarabelo na superfície rugosa da mó que faz cair o grão para o olhal.
A farinha caia para o fareleiro e por fim com uma pá de madeira era metiada nos sacos de pardo que as mulheres faziam nos teares da aldeia.

Enquanto houvesse grão o moinho não parava e durante a noite o sono era acompanhado pelo som repetitivo do tarabelo. Contam as más linguas que quando um casal pernoitava no moinho, o tarabelo sussurrava no ouvido do "moleiro" : vai-te a ela, vai-te a ela, vai-te a ela...


O moinho foi recentemente recuperado  assim como o espaço envolvente com o aproveitamento de uma mini-praia fluvial. Assim se conseguiu um espaço aprazível para os apreciadores de uns dias calmos junto ao rio com águas geladas e límpidas.

Mas ainda há quem se lembre do Bonito dà veiginha, moleiro de profissão, que se deslocava às aldeias próximas para recolher o grão em carradas de sacos que o arrocho prendia ao macho.  O seu moinho ficava um pouco mais abaixo e o seu trabalho era cobrado pela maquia com que ficava após cada moagem. Ao fim do dia, depois de trocar a farinha por mais grão para moer, montava no macho e lá regressava ao moinho. Tocado por um copinho e cansado da jornada por vezes adormecia em cima do macho que, habituado ao precurso, o conduzia sempre para casa. De manhã e depois do galo cantar a sua Maria lá encontrava o macho a pastar na eira com o moleiro ainda a dormir em cima. Não consta que alguma vez o macho se tenha perdido ou o dono tenha ficado pelo caminho.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Jantar dos "Encheablusa"

No nordeste transmontano aplica-se a velha máxima de "...quem não é para comer não é para trabalhar..." . Por isso, à grande disponibilidade e entrega ao trabalho desta gente  junta-se o gosto pelas patuscadas e comezainas. Hà cinco anos atrás, depois de muitas jantaradas passadas, nasceu a associação do "Encheablusa". Fundada por um grupo de amigos da boa mesa, de preferência bem regada e em boa companhia, de que se destaca o saudoso sócio honorário, Nuno Rodrigues.
Com o lema "comer como um abade" todos os anos, pela altura das castanhas, se realiza um jantar que reúne toda a  aldeia e os amigos que fazem questão de não faltar ao convivio. Para o repasto é seleccionado um restaurante nas redondezas que cumpra com os requisitos de qualidade e quantidade exigidos pela associação. Uma boa "pinga" é também uma exigência obrigatória.

O convivio deste ano começou durante a tarde com uma homenagem sentida a uma das sócias e ao  fundador da associação, já falecidos. Em sua alma foi celebrada  uma missa na igreja da nossa aldeia. Assim recordamos a amiga Julieta que apesar de estar longe não faltava a este convivio e o Nuno,amigo leal, trabalhador e bom garfo. Eles serão sempre lembrados com saudade.
À noite toda a gente se reuniu num restaurante perto de Bragança onde se comeu muito e bem, e se bebeu ainda melhor...A vitela assada na brasa, preferência da maioria, e uma boa bacalhauzada foram acompanhadas com apetitosas entradas, feitas com  produtos da região, terminando com as saborosas sobremessas.

Claro que o importante não é a refeição em si (dizem alguns!..) mas o convivio salutar entre todos e, principalmente, o descanso e homenagem prestados às mulheres da aldeia. Neste dia elas são poupadas aos trabalhos domésticos e tratadas com verdadeiras rainhas...

Apesar da aldeia ter pouca gente (mas boa, acrescentariam outros! ), está sempre disponível para jantaradas e festas  que, por vezes, se estendem às aldeias da freguesia. Muitos são aqueles que se associam a estas jornadas gastronómicas pelo que Gondesende, sendo uma aldeia pequena, serve de modelo às aldeias vizinhas onde a união não é tão evidente.





O convivio deste ano correu muito bem e no final todos pareciam satisfeitos. Para o ano, se Deus quiser, lá estaremos para marcar presença em mais um "Encheablusa"...  Até lá estão já agendadas algumas sessões de treino a realizar na casa do povo de Gondesende, a bem do convivio e da tradição.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O dia da aguardente

O termo de Gondesende já foi o lagar da freguesia. Nesse tempo Portela, Oleiros e até Espinhosela tinham vinhas nos terrenos das Barrondas, do Vinhago, de Bárrios, ao Barreiro e até no lombeiro dà Costa de onde saiam as uvas com que se produziam as pingas que por cá se bebiam.
Destes terrenos saíram vinhos que, segundo se diz, tinham qualidade que recompensava o muito trabalho que davam a produzir. Nesse tempo todos tinham proa no seu vinho quando convidavam os amigos para beber um copo.
Contudo, a desertificação destas terras levou ao abandono das vinhas e os terrenos, outrora cultivados, estão hoje transformados em touças de carvalhos ou soutos novos. Hoje, as poucas uvas que se colhem são criadas em parreiras junto à aldeia. Aqueles que teimam em manter a tradição têm as tinas e lagares cada vez mais vazios ou compram uvas noutras paragens.
Depois do vinho ferver e de se espremer o bagaço vem o dia da aguardente. Nesse dia trazem-se os potes de cobre para a porta da adega e coze-se o bagaço produzindo a bagaceira para matar o bicho nas geadas manhãs de inverno.
Tempos houve em que se desenjoava com pão centeio nozes e um golo de aguardente.
Outros, como a tia Isaura que Deus tenha, bebiam-na pelo dia fora em pequenos golinhos para aliviar as dores das pernas e assim reduzir o cansaço.
Por vezes metiam-se no pote umas peras de inverno embrulhadas num pano que coziam no vapor e eram depois comidas com açúcar. Esta sobremesa é ainda hoje muito apreciada.
Actualmente já não é por necessidade que se faz tudo isto mas sim pelo gosto que os mais velhos têm de ensinar aos mais novos e assim perpetuar tardições. Por isso os netos e os filhos juntam-se aos pais e avós nestas tarefas onde também já participam as mulheres.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Chegou o Outono...

As colheitas deste ano estão já arrecadadas e o frio já mostra vontade de voltar. Depois do "alboroco" do feno, das acarrejas do cereal e das malhas tudo fica mais sossegado e o trabalho abranda. As festas do verão que terminam com a Srª da Serra e a Stª Rita também já passaram, sendo esta última sempre muito concorrida, quer durante as novenas, quer no sermão e procissão do dia da festa. Em Terroso as merendas no souto por cima da estrada e o jogo dos paus são sempre muito participados.
O Outono faz-se anunciar pelos primeiros frios e pela queda das folhas das árvores. A paisagem que no verão era verde começa a tingir-se de tons de castanho, rosa e até matizes de vermelho. É nesta época do ano que o nordeste transmontano mostra toda a sua beleza. Por ora ainda se vê alguma verdura mas daqui a duas ou três semanas serão os tons quentes a dominar. As árvores vão despir-se mais uma vez e em breve voltará a apetecer o aconchego da lareira.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A Bolsa do Correio

Já poucos se lembram de como as cartas e aerogramas vinham ter com os habitantes de Gondesende. Era na carreira da tarde que chegava a bolsa que alguém ia buscar ao Abrigo para ser aberta na casa do correio. Aberta a bolsa e retirado o correio de Gondesende era outra vez fechada com a correspondência destinada a Espinhosela. E todos procuravam as suas cartas na casa do correio onde muitas vezes também pediam apoio na leitura.
O responsável pela bolsa lá partia para mais uns kms a pé levando a bolsa a Espinhosela, ou melhor, à Dª Aninhas. Esta senhora era a dona da taberna, função que acumulava com a de responsável pelo PBX que ligava a Bragança e a distribuição do correio.
No inverno já se regressava com a bolsa de noite e as bruxas da encruzilhada de Paio ou o caminho fundo das Cortinhas já incomodavam os menos afoitos. Mas as cartas e aerogramas, esses sempre chegaram ao seu destino.
Nos últimos anos era a tia Laucena que Deus haja e a sua família que distribuíam a correspondência por Gondesende e Espinhosela. A casa do Correio durante muito tempo era a casa do tio Celestino onde ainda se encontra a caixa.
Hoje já poucos são os que escrevem pois as cartas têm perdido o encanto de outrora e os computadores já as substituem. A correspondência que ainda vem para a aldeia, os avisos da décima, as contas, ou os vales com as pequenas reformas já vêm na froguneta vermelha dos Correios.