Há muitos anos atrás, no tempo dos meus bisavós, veio parar a Gondesende o Abade Augusto, o homem mais avarento deste mundo e do outro.
O primeiro baptizado que celebrou foi o do meu avô César que, claro está, ficou logo com o nome de Augusto. Este, por sua vez, teve cinco filhos, dois Augustos e três Augustas, sendo também Augustos todos os seus afilhados...que por sinal até foram muitos.
O Abade teve uma criada, a Rosária, que já com alguma idade lá ía aturando o mau feitio da peça.
Rico e com muitos bens, só emprestava dinheiro aos avantajados com a certeza que lho devolviam (com juros, claro!..). Quando algum pobre, num momento de aflição, lhe batia à porta para pedir um empréstimo logo dizia: - Não posso. Cabras não tens, cabritos não vendes e depois quando é que mo tornas?!
Na altura da Páscoa e quando da visita Pascal, era uso oferecer ovos, doces, coelhos e galinhas, que ele, "unhas de fome", guardava só para si. Por vezes, quando os miúdos brincavam no adro da igreja a criada Rosária distribuia, às escondidas do Abade, alguns doces que nessa altura já estavam "duros como cornos" sendo difícil enterrar-lhe o dente. A velha criada era boa gente e acabou por morrer ainda ao seu serviço. Depois veio a Dona Glória, mulher roliça, matreira e com um olhar atrevido que em vez de aturar o velho Augusto, procurava pela aldeia os rapazes mais moços... Ele estava sempre a chamar : -Ó Senhora Glória, ó Senhora Glória! E como ela nem sempre respondia, terminava:- Qual Senhora Glória, qual Senhora merda!
O Abade passava todos os santos dias a contar os tostões que tinha...
Nesse tempo era uso que quando alguém passava pelo reverendo Abade lhe pedisse a benção e beijasse a mão. E como o tio Albino representou tão bem o seu papel todos os que por ele passaram lhe pediram a benção pensando ser o Abade Augusto.
O farsante, sem levantar a cabeça, sorria e dizia: - Deus vos abençõe!
O farsante, sem levantar a cabeça, sorria e dizia: - Deus vos abençõe!
Depois de ter colocado o saco no castinheiro tal como combinado os malandros, que se encontravam por perto, quando foram buscar o falso dinheiro foram apanhados pela polícia.
Mais uma vez o Abade conseguiu proteger o seu bem mais precioso e como forreta que era nem agradeceu a quem o auxiliou.
Apesar da grande riqueza, o velho padre acaba por morrer só e de uma forma terrível, queimado no lume...o único legado que deixou a Gondesende foi o seu nome...pois, ainda hoje, existem muitos Augustos e Augustas na aldeia.