sábado, 7 de janeiro de 2012

Landonas, bazófias e fanfarronices

Tempos houve em que a telefonia não tinha chegado à aldeia e a televisão não passava de uma miragem. Os serões eram passados à lareira a contar estórias, jogar à “rebulhana” com os bilhós acabados de tirar do lume ou a ouvir o tio Oliveira, que Deus tenha, a contar, em versos, a vida do João Soldado. Esse homem, de quem não se conhecia a origem, aproveitava o cantinho atrás do lar (lareira) para cozinhar umas sopas na sua panela carbonizada e pagava os ingredientes com as suas estórias em verso. O vinho que o animava era, na maior parte dos casos, refervido ou tombado e, por isso, não o partilhava com os que o escutavam.
Nessa altura eram as fanfarronices e bazófias as mais apreciadas pelos mais novos. Quem não gostava de ouvir os relatos das grandes noitadas em que se bebia uma remeia de vinho (1/2 cântaro) e se comia “até lhe chegar com o dedo”. Outros gababam-se dos feitos, seus ou de outros, como a vinda do Pona defender a sua pátria (Portela) e o traque estrondoso do Tio Santo que da vinha dó Navalho fez ladrar os cães em Gondesende (mais de 1 km em linha reta). O tio David, que Deus haja, preferia os quebra cabeças e adivinhas. Quem não se lembra de o ouvir perguntar “como se faz um conto com 9 notas”. Havia ainda os sobredotados como o tio António dó Cabo, homem de grande sucesso entre as mulheres da aldeia que, de pé, conseguia segurar duas carreirinhas de bilhós sem utilizar as mãos.
Aqueles que ficaram conhecidos pelas suas alcunhas como o tio Carrapito, o tio Quatro, o Pacheca, a tia Ruça e a tia Maria dó Carvalho já há muito que nos abandonaram e já nem o cemitério local guarda a sua passagem. Não fora a alcunha e há muito não seriam lembrados. Mas hoje todos os dias a televisão nos traz para casa as notícias do mundo. Já não é fácil convencer os outros da grandeza das nossas façanhas e para ser famoso é preciso testemunhas e diplomas que as atestem perante o mundo. Mas nem isso é problema para as gentes da aldeia e o livro do Guiness lá regista a maior navalha do mundo, no Cepo Verde em Gondesende. Esta! Eu gostava de ver se os nossos vizinhos de Portela eram capazes de roubar.
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